quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

2. Reencontro (Final)



Ao chegar em casa eu fui direto ao guardar roupa. Eu precisava de uma roupa apresentável, já estava tão ansiosa pra amanhã e paciência nunca foi uma das minhas qualidades.
Fui até o guarda roupa da mamãe, meu pai deixava eu usar algumas coisas dela e enquanto eu procurava por um chalé cor de abóbora, acabei achando uma caixa, nela continha inúmeras fotos da família e naquele momento eu fiquei me perguntando “Por que meu pai tinha escondido ela de mim?”. E aí uma coisa estranha aconteceu, no meio daquelas fotos havia uma minha com o Connor, estávamos abraçados e ele sorria pra mim. Mas como? E foi então que eu vi outra, e outra e outra...
- Filha, o que você faz aqui? – ele parecia nervoso.
- Como isso é possível? Eu só o conheço há um mês – mostrei-lhe as fotos, ainda não acreditando nos meus próprios olhos.
- Você o conhece? – perguntou ele, surpreso.
- Sim, é o Connor. Ele freqüenta aquele grupo de encontro que você me obrigou a ir – senti meus olhos encherem – O que está acontecendo, pai? O que está acontecendo?
- Calma, eu vou te explicar. Está bem? Eu deveria saber que ele não ia desistir tão fácil – ele respirou fundo – O Connor era seu namorado, ele estava no carro da sua mãe quando o acidente aconteceu, era o único que usava o cinto de segurança. Até nisso você se pareci com ela. Eu vivia discutindo com sua mãe pra ela não esquecer de colocar o cinto, mas você sabe como ela era teimosa.
Eu não agüentei mais, meus olhos transbordavam como se não houvesse fim e quanto mais meu pai contava, mais forte era a dor que latejava na minha cabeça.
- Você ficou em coma por um mês, disso você sabe, mas durante esse tempo o Connor vinha sempre te visitar. Porém quando você melhorou, uma parte de você não estava lá. O Connor era como um papel em branco, você não lembrava dele. Nada. E foi então que eu pedi pra ele deixá-la, seria melhor pra vocês dois, já não tinham sofrido o bastante?
Minha cabeça doía. Doía. E doía. Parece que eu não tinha sofrido o bastante e naquele momento tudo estava vindo à tona.
Eu lembrei de tudo. As imagens apareciam como flashes e sempre que uma nova se distinguia, meus olhos se estreitavam com força, como se meu cérebro dependesse disso, como se ele fosse romper a qualquer momento. Lembrei da primeira vez que eu vi o Connor no hospital, logo após eu voltar do coma e como ele parecia um completo estranho pra mim. A imagem dele se associou aos meus sonhos, com a ajuda dos medicamentos, ele se tornou um personagem que não poderia ser mais real que um príncipe de contos de fadas e entendi a partir daí por que eu não havia o reconhecido no grupo de encontro.
- Pai, me leva até a casa do Connor – tentei ficar de pé, porém minhas pernas tremiam mais que a minha cabeça e foi então que eu desmaiei.
Já era noite quando tudo aconteceu, depois que eu acordei meu pai tentou me convencer a ficar em casa e descansar. “Você verá ele amanhã, eu prometo”, foi o que ele disse. E acabei fazendo o que ele pediu. Quando despertei no dia seguinte, meu pai ainda estava sentado na poltrona ao lado da minha cama e lutava pra manter os olhos abertos.
- Pai, o senhor precisa descansar – sussurrei para não quebrar o silêncio.
- Filha, se senti melhor? – perguntou, com um sorriso – Vou tomar um gole de café e ficarei novinho em folha.
Fiz uma careta de reprovação, mas ele a ignorou e seguiu em direção a cozinha. Ousei me olhar no espelho e não gostei do que vi, meus olhos ainda estavam inchados pelo choro. Então tomei um banho e coloquei roupas limpas, um jeans preto, blusa coral de manga longa e sapatilhas. Escovei meu cabelo que parecia um emaranhado de redes e passei um batom, para disfarçar a palidez do meu rosto.
- Onde a senhorita pensa que vai? – disse meu pai, fingindo seriedade.
- Eu? Não... Nós vamos.
- Acho que não será preciso – ele disse, antes de dá um novo gole no café.
Seus olhos me diziam alguma coisa e suas covinhas a amostra me revelavam o que eu já desconfiava. Corri até lá fora e a primeira pessoa que vi foi o Connor sentado no gramado, ele olhava para as crianças que passavam de bicicleta na rua. Sentei ao seu lado, ele passou o braço sobre os meus ombros e ficamos ali juntos por um tempo sem dizer nada.
- Fiquei sabendo de uma história... Que talvez você tenha se lembrado.
- Quem foi o informante? – brinquei.
- Ele me fez prometer que eu não contaria nada. Sinto muito, mas meus lábios estão selados.
Nós rimos.
- Você acha que ‘nós’ podemos voltar a ser como éramos antes?
A pergunta fez ele olhar pra mim. Eu sei que nada poderia ser ‘exatamente’ como era antes. O tempo muda as pessoas, mesmo quando não percebemos.
- Pra mim nunca deixou de ser.
Eu me sentia culpa por tê-lo esquecido. Maldita memória. Olha o que você fez comigo. Olha quanto tempo você me fez perder.
- Eu sinto muito – falei em resposta.
- Por quê? Eu sempre soube que ninguém poderia esquecer alguém como Connor Par... – ele começou a rir antes de terminar a frase.
Ninguém como Connor Parker conseguia transformar um momento tenso em engraçado de uma hora pra outra. Eu sempre me questionei “Como ele conseguia fazer isso?”.
- Senti falta da sua falsa modéstia – admiti.
Ele me beijou, deixei ser levada pelo seu cheiro úmido de roupa lavada, sua pele pálida parecia fria, mas pelo contrário, era terna e aconchegante. E naquele reencontro eu descobri a verdade. A verdade é que mesmo depois de tudo... Eu nunca o havia perdido.


                                                             Andressa S.A

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