quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

1. Reencontro



A primeira vez que eu vi o Connor Parker foi no grupo de encontro da igreja católica. Era um grupo para pessoas que quase haviam passado dessa para melhor, acidentes terríveis que acabaram levando alguém importante da vida de cada um.
O Conner chegou em um dia de confraternização, era um tipo de festa que acontecia um sábado por mês, com palestras, comidas, e jogos de entretenimento para forçar a ‘socialização’. Eu nunca havia visto ninguém parecido com ele, tinha um cabelo loiro tão claro que parecia branco, olhos castanhos escuros que ressaltavam na pela pálida, era o tipo de cara que só se ver uma vez, mas o estranho era que eu o conhecia de um lugar, um lugar que ninguém acreditaria se eu dissesse, um lugar que ficava nos meus sonhos.
Nós nunca conversávamos, só trocávamos olhares prolongados e inquisitivos, até que um dia ele sentou-se ao meu lado e seu cabelo liso estava mais bagunçado que o normal, o que me permitiu ver uma cicatriz branca no lado direito da testa dele e que se disfarçava por dentro do couro cabeludo. O que será que havia acontecido com ele? Eu estava tão distraída, que demorei a perceber que ele estava falando comigo.
- Eu sou o Connor – ele falou.
Pensei que ele iria perguntar meu nome, mas como não aconteceu, falei depois de um tempo.
- Julie Miller.
- Qual a sua história, Julie?
- O Clássico. Um motorista bêbado bateu no carro da minha mãe, ela morreu na hora e eu fui jogada contra o pára-brisa, mas não morri como você pode ver, por mais que eu tenha desejado. Eu não me lembro de muita coisa, na verdade tudo o que eu sei foram os médicos que me contaram.
O Connor não disse nada e ficou olhando para as próprias mãos.
- Tudo bem? – perguntei.
- Um dia você vai se lembrar – ele disse e foi embora.
Eu diria que essa foi a nossa conversa mais longa. Daí por diante trocávamos algumas palavras e aos poucos eu fui me acostumando com a sua presença e acho que ele com a minha.
Até que um dia enquanto eu conversava com a Olivia, que era uma das poucas pessoas que eu falava no grupo, lhe contei que talvez eu parasse de freqüentar os encontros, meu pai tinha me colocado lá contra a minha vontade e agora que eu estava bem melhor, ele pensava em me liberar. O que eu não esperava era a reação do Connor quando eu terminei de contar, ele saiu rapidamente e não voltou mais, talvez ele tivesse ouvido. Eu não sei. Quando se tratava dele tudo parecia um mistério.
Após o término, eu fui até a parada que ficava em frente à igreja, fiquei sentada esperando meu pai chegar como ele sempre fazia e foi aí que o Connor apareceu novamente, sentou-se ao meu lado com uma expressão aflita, passava as mãos freneticamente pelo cabelo, o que acabou me deixando um pouco nervosa e atraída ao mesmo tempo.
- Você não pode ir – ele falou, segurando em meus braços com firmeza – Eu tenho tanto o que dizer.
Seus olhos pareciam mais escuros enquanto me encaram, havia um fundo espelhado em que eu poderia ver meu reflexo dentro deles.
- Eu não entendo o que você quer dizer. Talvez se você me explica-se melhor...
O Connor aproximou seu rosto mais pra perto do meu, o suficiente pra eu sentir sua respiração, foi estranho e ao mesmo tempo familiar, fiquei parada esperando alguma reação, mas ele não fez nada, só me olhava de um jeito que eu não conseguia entender o significado.
- Um dia você vai se lembrar e verá como tudo fará sentido novamente. Eu não estou mentindo pra você, Julie, não quero te deixar confusa. – disse ele, após soltar o meu braço e lançar um sorriso discreto antes de sair novamente.
Talvez não tenha sido a intenção dele, mas eu estava completamente, inteiramente e indiscutivelmente confusa. Após esse episódio, o Connor continuou freqüentando o grupo, mas não tocamos mais no assunto.
- Qual é a história da cicatriz? – perguntei ao Connor enquanto ele tentava escondê-la com uma mecha de cabelo.
- Foi um acidente.
Isso eu já desconfiava. Nenhum avanço.
- Posso? – apontei para a cicatriz.
Ele fez uma careta, mas acabou concordando. Eu toquei na cicatriz, era mais macia do que eu imaginava, delineei com os dedos até atingir a porção do cabelo, era tão claro, não poderia ser natural. Poderia?
- Não é natural. É?
Ele riu pela primeira vez, como era lindo rindo, dava até vontade de rir junto mesmo sem saber o motivo.
- O que você quis dizer naquele dia? Você disse que um dia eu iria me lembrar. Lembrar de quê?
Não agüentei o impulso de perguntar. Ele estava ali aberto a uma conversa. Eu não poderia deixar uma oportunidade dessas passar.
- A curiosidade matou o gato.
- Sério? Que bela desculpa a sua.
- Paciência, Julie- ele se levantou pra ir embora e depois voltou a se sentar – Quer sair comigo?
Se eu estava surpresa? Muito. Muito. Surpresa.
- Quando?
- Amanhã. Eu te pego aqui em frente à igreja às quatro horas. Pode ser?
Eu sorri em resposta e ele aceitou como ‘sim’. Antes que eu pudesse perdê-lo de vista, ele me olhou com aqueles olhos espelhados e disse alguma coisa que não consegui entender, mas seja lá o que fosse, senti minhas bochechas formigarem.

                                                                 Andressa S.A

Nenhum comentário:

Postar um comentário